Friday, 14 December 2018

Instantes suburbanos

Cenário: carruagem do comboio praticamente vazia: na parte da frente estariam cinco ou seis pessoas, na parte de trás, três contando já comigo. 


Entrou um senhor de idade, curvado e aborrecido, resmungando para uma das mulheres, sentada nos lugares reservados.


- Sentam-se no lugar reservado às pessoas ... - e agitava o jornal que trazia na mão. E tinha a sua razão. O comboio estava vazio quando ela entrou, porquê aquele lugar? Nunca percebi a preferência. 


Ah, mas pode estar grávida ou magoada e não se notar  Verdade  contemplei essa possibilidade, aqueles lugares até são mais perto da porta, teria menos para andar ao sair e tal... A resposta veio da própria. 


Aparentemente o senhor continuou a reclamar (não vi porque estava de costas para a frente do comboio), porque a dita mulher sentada nos lugares reservados começou a sua defesa, levantando a voz:


- Que é que foi? Vá você! Tanto lugar vazio e vem cá marrar comigo... 


Eu sei, eu sei, havia de facto muitos lugares vazios e o senhor devia estar mal disposto - também acredito que seja recorrente ver aqueles lugares ocupados. Mas não acho que houvesse grande argumento aqui. Dizer "vá você" ou "que é que foi?" enquanto atira a cabeça para trás, não dão razão a ninguém. Antes tivesse um pé torcido. 


Mas não é inédito. Andamos fartos uns dos outros, no virtual, no real. Ou teremos sido sempre assim? Estou a usar o plural, mas nunca teria tido aquela reacção. Nenhuma das duas, agora que penso nisso. Não saberemos falar uns com os outros se não nos conhecermos? Podia ser o pai dela, podia ser a filha dele. Falarão sempre assim? 


 

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